Entrevista com Arthur Gadelha

Por Duarte Dias, Programador e Curador do Cinema do Cineteatro São Luiz


Presidente na gestão 2020/2022 da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine), Arthur Gadelha é produtor do Núcleo de Imagem do Jornal O Povo. Foi curador dos curtas-metragens da 6ª edição do Festival de Jericoacoara, compôs o Júri Universitário do 26º Cine Ceará e os Júris da Crítica do 10º For Rainbow - Festival da Diversidade Sexual e 17º Noia - Festival do Audiovisual Brasileiro. Em 2019, ministrou a oficina “Cinema Brasileiro Nasceu no Cineclube” com Kamilla Medeiros na escola Porto Iracema das Artes, ação de formação crítica e cineclubista. No cinema, realizou os curtas “Distante” (2015) e “Capitais” (2018), codirigido com Kamilla, e integrou a equipe de finalização do documentário “Trem da Alegria: Arte, Futebol e Ofício” (2016), de Francis Vale.



Duarte Dias - Como nasceu seu interesse pelo cinema?


Arthur Gadelha - Meu brilho nos olhos pelo cinema surgiu pelo mesmo motivo da minha prática profissional no campo jornalístico: tenho apreço por contar histórias. Não apenas pelas histórias em si, mas pela forma como elas são contadas. Isso me admira. Quando criança, antes de contar algo, projetava um roteiro na minha cabeça de como o fazer: começo por onde? Como eu termino para deixar a história mais memorável? Isso me acompanhou. E, curiosamente, quem me levou para a realização audiovisual foi a mesma atividade que me tirou: a crítica de cinema. Claro que eu não era crítico aos 14 anos, mas foi o meu ingênuo desejo em futuramente ser crítico de cinema que me levou a buscar entender os filmes e querer contar as minhas próprias histórias. Contei poucas, apenas três curtas-metragens, mas fazem parte de momentos importantes da minha vida.


D.D. - Você é, além de diretor, crítico de cinema. Em que medida as duas atividades convergem na realização de um filme ou de um texto crítico?


A. G. Hoje na perspectiva da crítica, compreendo ainda mais a convergência dessas duas práticas porque elas fazem perguntas muito semelhantes: o realizador se pergunta sobre o que deseja contar e o crítico busca referências próprias para interpretar essa mensagem. Há um respeito mútuo na construção dessas atividades porque tanto a realização quanto a crítica não são obras atemporais. Longe desse romance, ambas são obras que exigem contexto. A crítica de cinema, seja na forma textual ou no processo curatorial, busca enxergar uma história para além do que ela mostra sozinha. A crítica e a realização não são práticas redondas, elas convergem na dúvida também. Sinto que elas são mais potentes quando te deixam perguntas, quando te incomodam. São iniciativas de quebra do que for possível chamar de “realidade”. O audiovisual quebra o real que registra e a crítica quebra o real desse registro. É um caminho que se alimenta porque, afinal, ao nascerem do contexto de diferentes incômodos e desejos, você não diria que obras audiovisuais sejam essencialmente críticas de cinema?


D.D. - O filme “Distante” é, provavelmente, o último registro no qual aparece o cineasta Francis Vale, cuja predileção, sabe-se, era ficar atrás das câmeras, dirigindo. Como foi esse processo de convencimento e trabalho com ele?


A.G. - Minha história com Francis foi tão curta quanto divisora de águas. Ainda nos tornaríamos amigos, mas nas gravações do “Distante” ele era apenas o pai cineasta da minha amiga. Neste final de semana da gravação, conversamos sobre pedaços da história do cinema brasileiro e esse assunto me fez querer gravar alguma coisa. Escrevi um roteiro rápido com Arthur Catunda pensando no personagem do Francis, um senhor de idade em silêncio à beira do rio – cena em que costumávamos observá-lo. O perguntei sobre a ideia com receio de que não topasse participar de uma “brincadeira”, e para minha surpresa ele se empolgou sugerindo detalhes para que a temporalidade do filme ficasse mais evidente. Foi ele quem sugeriu que essa história acabasse ao som de Dorival Caymmi na canção “A Jangada Voltou Só”. Para além desse filme, muita coisa em mim não existira sem ele. Foi ele quem me mostrou o poder do cinema brasileiro, foi ele quem me fez perceber que a crítica de cinema era um lugar para refletir os tantos Brasis que existem sob essa manta simplista de nação. Francis me chacoalhou. Gostaria de ter vivido pelo menos mais uns 10 anos ao seu lado.


D.D. - “Distante” explora, entre outras coisas, o silêncio e a incomunicabilidade, no caso, entre pai e filho. Numa época em que os meios de comunicação, por intermédio do uso sistemático e crescente da tecnologia, se tornaram um fenômeno por vezes invasivo que desgasta e esvazia a relação entre as pessoas, qual o papel que o cinema ocupa em face a esse paradoxo de comunicabilidade?


A. G. - Há uma realidade mais cruel escondida nessa pergunta porque para além do contexto da tecnologia sufocante, estamos no meio de uma pandemia. Essa situação nos distanciou ainda mais, fez do silêncio um paradoxo muito mais aflito, tornou a convivência digital o novo padrão. Não sinto que deixaremos isso de lado tão cedo. O cinema meio que quebra esse silêncio quando te faz pensar sobre ele. Foi o cinema que apoiou muita gente presa em casa tendo que ver o mundo de uma janela. Sinto que filmes e séries foram esse elemento que ocupou o silêncio, que relativizou a distância que estamos das pessoas que amamos. A relação entre os personagens de “Distante” não é óbvia, pode deixar dúvidas sobre essas questões que se tornam tão intensas nesse nosso contexto onde o silêncio da distância é o que mais sufoca, mesmo que, aparentemente, eu possa manter esses contatos de forma virtual.


D.D. - Quais os próximos passos do cineasta e crítico Arthur Gadelha?


A.G. - Hoje, por estar na presidência da Associação Cearense de Críticos de Cinema – Aceccine, meu tempo hábil se esgotou diante da responsabilidade de estar na equipe que guia a entidade que representa a crítica cearense. Não tenho previsão de retornar à realização audiovisual – a crítica me levou até ela, a crítica me tirou. Por enquanto estou aceitando esse destino.


Serviço


Exibição de “Distante”

16/07/2020, às 20h

Direção: Arthur Gadelha | Ficção | Brasil | 2015 | 7'

Sinopse: A distância entre um pai e seu filho encontra o silêncio.

Onde: https://www.cineteatrosaoluiz.com.br/semana-do-audiovisual-cearense // https://www.youtube.com/c/CineteatroSãoLuizFortaleza


CINETEATRO SÃO LUIZ
Rua Major Facundo, 500 - Centro | Fortaleza - Ceará |  CEP: 60025-100

Bilheteria: (85) 3252.4138
De Terça a Sábado – 10h às 18h30

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