ENTREVISTA COM ROBERTO BOMFIM

Por Duarte Dias, Curador e Programador do Cinema do Cineteatro São Luiz


Essa entrevista se dá no contexto do lançamento do documentário “Vestígios pré-coloniais cearenses”, de Roberto Bomfim, na programação online “Semana do Audiovisual Cearense”, disponível aqui no site e no canal do equipamento no Youtube.


Brasileiro, jornalista, documentarista e pesquisador premiado em editais e festivais de cinema, Roberto Bomfim realiza filmes documentais com temática social, educacional e cultural a partir da perspectiva histórico-social, tendo no Ceará o seu principal campo de atuação.

Gestor em cultura pela Universidade Federal do Ceará e repórter cinematográfico, é fundador da Confraria Chapéu de Couro, instituição que tem como objetivo prospectar as tradições do povo cearense.


Roberto Bomfim está no centro da imagem, Duarte Dias à esquerda.


Duarte Dias - Como se deu o despertar do seu interesse para a linguagem audiovisual?


Roberto Bomfim - Primeiro, acredito que foi de sangue. Na minha juventude tive muitas influências, pois sou sobrinho/neto de Júlio Maciel (príncipe dos poetas cearenses), neto de Layce Severiano Bomfim (professora de história da antiga Escola Industrial, hoje, IFCE) e filho de Sulamita Feitosa Bomfim (Professora de história e português da Secretaria de Educação do Estado do Ceará). Além de ter sido um excelente aluno de história. Na verdade, a história sempre transitou na minha vida. Parte dos meus ancestrais e parte do meu interesse em prospectar registros históricos.


Segundo, fui contaminado com o vírus de investigar. Na academia (UNIFOR), como aluno de jornalismo e ao descobrir a pesquisa no CNPQ. A partir daí, fui aprofundar minhas pesquisas e conhecimentos nas bibliotecas mais importantes de Fortaleza. Indizíveis para mim: Academia Cearense de Letras, Instituto Histórico do Ceará, Meneses Pimentel e Arquivo Público do Estado. Não obstante, fui fazendo concomitantemente, curso na Casa Amarela (cinema), de Repórter Cinematográfico e pequenos cursos de roteiro, linguagens audiovisuais e narrativas/ dispositivos.


E terceiro, senti falta na linguagem audiovisual, de trabalhos voltados para a história do Ceará. Somos poucos documentaristas que pensam sobre a história do Ceará. Alguma coisa acadêmica, outros pontuais, mas a vinte anos atrás, poucos cineastas trabalhavam com essa temática. Por isso, fiz e continuo produzindo. São mais de 20 anos de muito pertencimento e amor ao Ceará. Principalmente, respeitando a reconstrução de historiografias. São registros e reflexões de um passado, que no presente, prospecta informações às futuras gerações. Somamos o saber empírico com o saber acadêmico. E os dois saberes, me fazem um eterno aprendiz.


DD - Seu trabalho enquanto documentarista tem essa forte ligação com a história do Ceará e, por óbvio, com a história dos povos nativos e daqueles que por aqui aportaram desde 1500. Neste aspecto, como você acredita que deva ser a postura de um profissional diante das várias versões que um fato pode vir a ter?


RB - Reconstruir uma história em audiovisual é difícil. É como construir um prédio. Existem etapas, formas, conteúdos, ciência, estudo. A história está sempre em movimento. Ela nunca acaba com o passar do tempo. Entendo que na história exista várias versões. Depende de quem conte, sua formação, ideologia e ou pretensão.


Mas acredito na palavra ética.


Como jornalista, trabalho nas pesquisas com total imparcialidade, pois existem várias verdades. Vários caminhos sobre uma determinada história. Como documentarista e pesquisador, atento para as fontes históricas, especialistas no tema, pesquisas e literatura acerca de um determinado trabalho. Daí você tem a base. Tudo isso, para seguir determinando a construção de uma narrativa que possa contribuir com a ideia inicial. Nesse processo, há necessidade de ouvir a oralidade de pessoas que viveram ou souberam acerca daquele determinado tema. Acredito que o documentarista traz reflexões. Tento mostrar uma visão mais próxima das variáveis versões. Não obstante, assumindo minhas responsabilidades na pesquisa e no trabalho escolhido.


DD - Sua mais recente produção, “Vestígios pré-coloniais cearenses”, teve apoio da Secretaria da Cultura do Estado por meio do Edital Ceará de Cinema e Vídeo que, naquela ocasião, 2016, contou com recursos da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Enquanto profissional e documentarista, como você avalia os mecanismos de fomento ao cinema, tendo em mente o cenário atual?


RB - Quando do lançamento do Vestígios eu disse: “Por sorte, fomos premiados pelo Edital de Cinema e Vídeos 2016. Agradeço a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, porque é a resistência. Hoje, no Brasil. Dando exemplo em financiar produções. Uma esperança no fim do túnel “. Pois foi por meio dela que conseguimos realizar o filme. Espero que nossa Secretaria continue forte e atuante, dando exemplo para o Brasil.


Hoje, não sei como está funcionando o FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), mas reconheço, que com o desmonte da cultura, pelo governo Federal, ficou tudo mais difícil. Vejo que a maior preocupação, continua sendo a diminuição do aporte financeiro e as formas de financiamento federais, estaduais e municipais. Os produtores poderiam ter outros meios, além dos editais. Essa é a grande discussão. Pois a oportunidade deve chegar para TODOS e para os bons projetos, que muitas vezes não são contemplados. Fazer cinema é dispendioso. A enorme burocracia é outro ponto a ser observado. Por fim, não vejo com bons olhos o momento que vivemos. Contudo, acredito na cultura do Ceará. Ratifico, acredito na cultura cearense. Resistência é a palavra do dia! Tudo Passa.


DD - “Vestígios pré-coloniais cearenses”, como bem traduz o título, se refere a um passado remoto, ancestral. Que tipo de ancestralidade emerge do documentário e como se dá sua interação com os dias atuais?


RB - Ao longo do projeto Vestígios, tive em vista a necessidade crescente de conhecer, e estudar, o maior número possível de Sítios Arqueológicos. Ouvir a ciência (Academia), mateiros, caçadores e a população que vivem próximo aos Sítios. São mais de 5.000 Sítios catalogados, sem contar os que ainda estão porvir. Buscamos teses para justificar esse ser pré-colonial. Sua ocupação territorial, hábitos, lugares onde viveram, tudo isso, em seus registros (pinturas, gravuras, artefatos cerâmicos, dentre outros). Não obstante, evidenciando seu comportamento em terras cearenses, que se constitui em um ambiente patrimonial, social e cultural.


Estamos Falando da ERA CENOZÓICA (de 63 – 65 milhões de anos atrás), Período Quaternário e Época Holocena (11.000 anos atrás até hoje). Os estudos ainda são bastante incipientes. Segundo o Dr. Celso Lira Ximenes (Paleontólogo), “O Ceará tem, na verdade, um grande buraco negro de conhecimento desse período. Porque, por falta de instituições e órgãos que se dediquem ao estudo, se perdeu muito com o próprio projeto de colonização.”


Esses silvícolas foram os primeiros habitantes do Ceará, que, ao longo da colonização, foram dizimados pelo colonizador. Felizmente deixaram sua herança genética/cultural, junto as poucas e diversas etnias sobreviventes. Sua arte em cerâmica, urnas, machados, gravuras e inscrições rupestres são as únicas impressões desse homem do passado. Portanto, esse ser pré-colonial tem sua ancestralidade presente no homem cearense atual, na sua força de sobrevivência em um ambiente seco e inóspito. Um sobrevivente que merece toda nossa atenção.


DD - Quais são os próximos passos do documentarista Roberto Bomfim?


RB - Estamos aguardando, junto a Secretaria de Cultura do Ceará, a conclusão do processo de seleção de dois projetos. No primeiro, fomos classificados no XII Edital Mecenas do Ceará, com o filme: Ceará Francês. Vamos aguardar a carta de habilitação, para buscarmos um patrocinador. Sei que vai ser muito complicado nesse momento, mas tenho esperança. O Vestígios, por exemplo, foi também contemplado pelo Mecenas, mas não conseguimos patrocinadores. Por sorte e muito trabalho, dois anos depois, conseguimos financiamento com o Edital de Cinema e Vídeo.


E o segundo, aguardando o certame do Edital de Cinema e Vídeo do Ceará. Com o filme: Ceará Negro. Uma boa oportunidade de reconhecimento e valorização da negritude cearense. Um relato que, de uma vez por todas, irá colocar em pauta seu pertencimento na história do Ceará. Temos uma comunidade negra que merece respeito. Somos todos de sangue vermelho. Já passou da hora do Negro pertencer ao Ceará. Ademais, vou continuar pesquisando temas pertinentes a historiografia do Ceará, trazendo reflexões e levando-as para os cearenses.


Equipe do filme “Vestígios Pré-Coloniais Cearenses” na estreia do mesmo no Cineteatro São Luiz no dia 04/03/2020

CINETEATRO SÃO LUIZ
Rua Major Facundo, 500 - Centro | Fortaleza - Ceará |  CEP: 60025-100

Bilheteria: (85) 3252.4138
De Terça a Sábado – 10h às 18h30

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