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Cinema de rua: a importância de preservar essas salas como patrimônio histórico e cultural

  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Os cinemas de rua são documentos vivos da arquitetura, da memória coletiva e da identidade urbana brasileira. Entenda por que preservá-los é um ato de cidadania e responsabilidade cultural.


Pessoas transitando a calçada do Cineteatro São Luiz
Cineteatro São Luiz durante tributo aos Beatles, em 2015 / Foto: Acervo do Cineteatro São Luiz.

Há décadas, ir ao cinema era muito mais do que assistir a um filme: era um ritual social, uma experiência coletiva, até mesmo um encontro romântico, que começava na fila da calçada com o cheiro de pipoca exalando, passava pelo glamour do foyer em mármore e terminava na regra tácita de silêncio da plateia diante da grande tela. Os cinemas de rua marcaram gerações, moldaram identidades, construíram famílias e contribuíram positivamente para a vida cultural das cidades brasileiras.

Atualmente, uma grande parte deles não existe mais. Em Fortaleza, por exemplo, ao menos 73 cinemas de rua funcionaram entre 1908 e a segunda metade do século XX, segundo pesquisa do historiador Ary Bezerra Leite. Como resistência, o Cineteatro São Luiz permanece, equipamento público do Governo do Estado. Vale a menção honrosa ao Cine Nazaré, o “último cinema de bairro” de Fortaleza. Fundado por Raimundo Carneiro de Araújo, mais conhecido como Seu Vavá, o espaço funcionou por cerca de 75 a 80 anos, com variações de gestão e períodos de interrupção. Ao longo do tempo, a sala passou por diferentes fases: foi fechada em 1954 e reaberta em 1969 por Seu Vavá, que a manteve em atividade por mais de cinco décadas, até o início dos anos 2020, quando deixou de funcionar regularmente. 

“Eu acho que é um lugar onde a comunidade se encontra, um espaço de pertencimento. É onde as pessoas vão, levam os filhos, têm seus primeiros encontros, reencontram amigos. No fim das contas, é um lugar que se integra à vida da comunidade”, Lara Machado relata, em depoimento exclusivo ao Cineteatro São Luiz. Ela é neta de Raimundo Carneiro de Araújo (Seu Vavá), proprietário do Cine Nazaré, um dos últimos cinemas de bairro de Fortaleza.


Fachada do Cine Nazaré, fundada por Seu Vavá
O último cinema de bairro de Fortaleza, Cine Nazaré, fundado por Seu Vavá / Foto: Sérgio Poroger

Mas a precarização desses espaços não é apenas uma questão nostálgica. É uma perda cultural concreta: de arquitetura, de memória, de pertencimento e de espaço público de arte democrática. Por isso, cuidar dos cinemas de rua que ainda resistem e reconhecer o valor histórico dos que foram perdidos é uma causa que diz respeito a todos os amantes da sétima arte.


O que são os cinemas de rua e por que são considerados patrimônio histórico?


O termo “cine​ma de rua” se refere às salas de exibição audiovisual inseridas diretamente no contexto urbano integradas a calçadas, praças e avenidas, sem intermediação de lojas e outros centros comerciais. Diferentemente das salas de exibição de shopping, esses espaços dialogam diretamente com a cidade, com o entorno e com o cotidiano do público.

O cinema de rua representa um modelo de ocupação cultural e de entretenimento do espaço público. Sua existência é uma relação direta entre o prédio e a rua, entre o espectador e a cidade. É no caminho até o cinema, na calçada, o encontro com os amigos na fila, nos bancos da praça que parte da experiência acontece.


Imagem em preto e branco da portaria do luxuoso cinema de rua Cine Diogo
Portaria do luxuoso cinema de rua Cine Diogo /  imagem de arquivo do Nirez

Essa vivência pública e coletiva é precisamente o que transforma muitos desses cinemas em patrimônio histórico e cultural. Para que um bem seja reconhecido como tal no Brasil, ele precisa carregar referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, como determina o Artigo 216 da Constituição Federal de 1988. Os cinemas de rua se enquadram nessa definição de múltiplas formas:

•      Pelo valor arquitetônico dos seus edifícios, que registram estilos de cada época (Art Déco, Modernismo, Ecletismo);

•      Pelo valor histórico, como marcos do desenvolvimento urbano e cultural das cidades;

•      Pelo valor afetivo e imaterial, como espaços de memória coletiva, encontro social e formação de público;

•      Pelo valor simbólico, como representações da vida cultural de uma comunidade ao longo do tempo.

Assim, quando falamos em preservar um cinema de rua como patrimônio, não estamos falando apenas de conservar um prédio bonito. Estamos falando de proteger um documento vivo da história urbana, social e cultural do Brasil.


O que é um patrimônio histórico cultural no Brasil?


O conceito de patrimônio histórico e cultural no Brasil tem raízes no Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, o primeiro instrumento legal de proteção do patrimônio material no país e um dos primeiros das Américas. Esse decreto criou o tombamento como mecanismo de proteção.

Mas foi a Constituição Federal de 1988 que ampliou e modernizou esse conceito. O texto constitucional substituiu a antiga expressão "Patrimônio Histórico e Artístico" pelo termo mais abrangente "Patrimônio Cultural Brasileiro", incorporando, pela primeira vez, o patrimônio imaterial — os saberes, as práticas, as celebrações e os modos de fazer que constituem a identidade de grupos e comunidades.

O gestor desta política em âmbito federal é o IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, autarquia federal criada em 13 de janeiro de 1937. De acordo com a legislação vigente, "o objetivo do tombamento de um bem cultural é impedir sua destruição ou mutilação, mantendo-o preservado para as gerações futuras."  (IPHAN, 2025).

O tombamento pode ser realizado em três esferas: federal (pelo IPHAN), estadual (pelos órgãos estaduais de patrimônio, como a SECULT no Ceará) ou municipal (pelos órgãos municipais). Qualquer pessoa física ou jurídica pode solicitar o tombamento de um bem ao IPHAN.


Como funciona o Livro do Tombo: O Decreto-Lei nº 25/1937 estabeleceu quatro Livros do Tombo: (1) Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; (2) Histórico; (3) Belas Artes; e (4) Artes Aplicadas. Bens tombados em razão de sua arquitetura e história cultural, como cinemas, podem ser inscritos no Livro do Tombo Histórico e/ou no de Belas Artes.

No campo dos cinemas, o Cineteatro São Luiz foi tombado como patrimônio histórico e cultural estadual em 1991, tornando-se o único cinema de rua remanescente de uma era de ouro da capital cearense.


Qual a diferença entre cinema de rua e as salas de exibição em shoppings?


A diferença entre um cinema de rua e as salas de exibição do shopping center não é apenas de localização, é de pertencimento, de experiência e de relação com a cidade.


Comparativo entre cinema de rua e cinema de shopping.
Diferença entre Cinema de Rua e Cinema de Shopping
  • No cinema de rua: o espaço integra-se à vida pública. A chegada acontece a pé, pela calçada, e a fachada dialoga com o entorno. A experiência começa antes mesmo da sessão: nas conversas na fila, no encontro com amigos, nos bares e lanchonetes vizinhos. Após o filme, o espectador retorna à rua, à cidade viva. Em muitas dessas salas históricas, a própria arquitetura faz parte do espetáculo, com mármore importado, lustres de cristal e murais pintados à mão.

  • Nas salas de exibição do shopping: o ambiente é controlado e padronizado. A chegada, em geral, é feita de carro, pelo estacionamento, muitas vezes mediante pagamento. O espectador entra em um espaço climatizado e isolado, repleto de estímulos, percorre corredores de lojas e é conduzido diretamente à sala. Após a sessão, retorna ao estacionamento. Não há rua, não há cidade, nem encontro com o espaço público, muito menos com a vida urbana.

“Hoje o Brasil tem praticamente o mesmo número de salas de cinema que tinha em 1976, apesar da população ter mais que dobrado. O problema não é só a quantidade, mas a concentração dessas salas nos grandes shoppings, enquanto os cinemas de rua desapareceram das cidades e do cotidiano das pessoas. Antes, o cinema fazia parte da vida urbana, do lazer acessível e dos encontros diários. Hoje, a experiência ficou mais concentrada, comercial e distante” afirma Max Eluard, produtor de cinema, professor do curso de cinema e audiovisual e diretor da TV Unifor.

Do ponto de vista patrimonial, a distinção é ainda mais clara. Um cinema de rua centenário carrega valor histórico, arquitetônico, afetivo e simbólico que salas de exibição geralmente não oferecem. Frequentar o Cineteatro São Luiz em Fortaleza, com seus lustres de cristal da extinta Tchecoslováquia e seu foyer em mármore de Carrara, é uma experiência que é, ao mesmo tempo, ancestral e histórica.


Fachada do Cineteatro São Luiz na pré-estreia de "Prefeita"
Fachada do Cineteatro São Luiz / Foto de Igor Barbosa (Dazfotos)

Por que tantos cinemas de rua fecharam ao longo das décadas?


O declínio dos cinemas de rua é um fenômeno observado em todo o mundo, mas que se acelerou de maneira marcante no Brasil a partir da década de 1970. Em Fortaleza, entre 1908 e 1959, a cidade contou com 73 cinemas fixos de rua.

Esse processo de extinção tem causas múltiplas e interligadas:


1. A chegada da televisão e das novas tecnologias

A popularização da televisão, foi o primeiro grande golpe. O videotape, a TV por assinatura, os DVDs e, mais recentemente, os serviços de streaming transformaram os hábitos de consumo audiovisual do público. O espectador, antes obrigado a sair de casa para ver um filme, passou a ter acesso ao entretenimento sem sair da sala.

2. A chegada dos shoppings centers

A chegada dos shopping centers representou o golpe definitivo para as salas tradicionais de cinema de rua. Se a modernização das salas nos shoppings trouxe consigo maior conforto e a comodidade de reunir diversos serviços em um único espaço, ela teve também um efeito colateral significativo: o acesso ao cinema tornou-se cada vez mais restrito, assumindo um caráter elitizado.


Qual a importância de preservar os cinemas de rua como patrimônio histórico de uma cidade?


A dimensão arquitetônica que se transforma em um documento em pedra, concreto e mármore dos edifícios dos cinemas de rua são documentos arquitetônicos que registram o estilo e as aspirações de cada época. O Art Déco dos anos 1930 e 1940 com suas linhas geométricas, ornamentações lineares e materiais nobres importados, está preservado nas fachadas e interiores de cinemas como o São Luiz, em Fortaleza, projetado pelo arquiteto cearense Humberto da Justa Menescal e inaugurado em 1958. 

A preservação dos cinemas de rua em funcionamento contribuem ativamente para a revitalização dos centros históricos. Atraem público para regiões que, de outra forma, permaneciam desertas. Geram movimento nas calçadas, animam bares e restaurantes vizinhos, criam pólos de cultura e encontro social. A experiência do Cineteatro São Luiz demonstra como esses espaços, quando bem geridos, tornam-se âncoras de revitalização urbana.

Outro ponto fundamental é o acesso democrático à cultura, os shoppings centers, ao imporem o padrão de acesso por carro e ingressos mais caros, tornaram o cinema progressivamente mais elitizado. Os cinemas de rua, especialmente quando geridos pelo poder público, podem oferecer acesso democrático e a preços acessíveis. O Cineteatro São Luiz, por exemplo, já recebeu mais de 1,7 milhão de pessoas em suas programações desde a reabertura, em 2015, segundo dados baseados em estudos internos do CSL.


Como o cidadão pode contribuir para a valorização do cinema de rua como patrimônio vivo?


  • Frequentar cinemas de rua - Ocupar esses espaços é essencial para sua sobrevivência e fortalecimento, pois a presença do público justifica investimentos e manutenção.

  • Valorizar na prática - Optar por assistir a filmes em cinemas de rua, em vez de salas em shoppings, é um ato direto de apoio ao patrimônio cultural.

  • Buscar e compartilhar conhecimento - Conhecer a história dos cinemas de rua da sua cidade e divulgar essas informações ajuda a construir consciência coletiva.

  • Fortalecer a valorização cultural - Reconhecer a importância desses espaços é o primeiro passo para sua preservação.

  • Acompanhar e cobrar políticas públicas - Participar de audiências, acompanhar órgãos culturais e cobrar ações de representantes políticos contribui para a proteção desses bens.

  • Atuar como cidadão ativo - Lembrar que qualquer pessoa pode iniciar processos de tombamento de patrimônios culturais.

  • Apoiar iniciativas culturais - Participar e incentivar festivais, cineclubes, exposições e projetos de memória que mantêm viva a história dos cinemas de rua.

  • Formar e engajar novos públicos - Incentivar outras pessoas a frequentarem e se interessarem por esses espaços culturais.


Patrimônio e ancestralidade


Os cinemas de rua são muito mais do que edifícios antigos ou relíquias de uma era que passou. São espaços onde a cidade se encontrou consigo mesma, onde trabalhadores e intelectuais, jovens e idosos, moradores de bairros distintos compartilharam, no escuro de uma sala, experiências comuns. Essa função social é insubstituível.

Em Fortaleza e no Ceará, o Cineteatro São Luiz é hoje a prova viva de que essa preservação é possível e que ela gera resultados concretos: mais de 1,7 milhão de pessoas atendidas, 8 mil atividades culturais realizadas, e gerações conectadas por um espaço cultural que atravessa o tempo sem perder a alma. 



Pauta: Vinicius Teixeira

Texto: Vinicius Pires Revisão: Letícia Feitosa e Vinicius Teixeira

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